quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Entrevista com Francisco Gomes de Matos, Consultor e Autor do livro: "Ética na Gestão Empresarial - da Conscientização à ação".

Ética: profunda revisão da cultura corporativa

Patrícia Bispo

A formação de equipes comprometidas é um desafio constante para as organizações que lidam com os efeitos da Globalização -- fenômeno que permite a disseminação do conhecimento em uma velocidade surpreendente. No entanto, para que os profissionais “vistam a camisa” da empresa é necessário que eles estejam motivados, sintam-se parte do negócio e entendam a importância do seu trabalho para o alcance e a superação de metas. Mas como conseguir que as pessoas, com pensamentos e necessidades individuais, trilhem em busca de um objetivo comum? Esse questionamento é feito inúmeras vezes por dirigentes de companhias que atuam em segmentos dos mais variados. Já a resposta para essa indagação, dependerá da cultura de cada organização e da adoção de ações concretas e direcionadas à Gestão de Pessoas. No entanto, um fator certamente influenciará a obtenção ou não do sucesso desses investimentos: a presença da ética organizacional.
De acordo com Francisco Gomes de Matos, consultor e autor do livro “Ética na Gestão Empresarial – da Conscientização à Ação”, lançado pela Editora Saraiva, o pressuposto básico é que a ética está presente na consciência humana e na cultura das organizações, onde se desenvolve a consciência coletiva. Dessa forma, a cultura corporativa torna-se a primeira referência de um modelo de renovação ética. “A liderança é formadora de consciências, vontades e estratégias transformadoras, direcionadas ao bem-comum. Ser líder implica, necessariamente, em ter compromisso ético”, destaca. Em entrevista concedida ao RH.com.br, o consultor cita quais os principais fatores que dificultam a adoção de uma postura ética no meio organizacional e reforça a importância da presença do profissional de Recursos Humanos nesse contexto. O tema é, no mínimo, polêmico e certamente ganhará um espaço cada vez mais destacado nos corredores das empresas e junto às funções estratégicas. Boa leitura!

RH.COM.BR - O que podemos considerar ética corporativa?
Francisco Gomes de Matos - Ética corporativa é a maneira de “ser” de uma organização. Significa que sua conduta pública orienta-se por princípios de valor consensuais, que caracterizam um perfil próprio. De uma ética corporativa, reconhecidamente consistente, resulta o efetivo engajamento de pessoas com as organizações – o orgulho de pertencer ao quadro da empresa. É imprescindível o sentimento de admiração para que exista uma identificação com a causa. A ética corporativa retrata a cultura organizacional.

RH - Ser ético tem sido complicado no meio organizacional?
Francisco Gomes de Matos - Tem sido muito complicado porque não há razoável conscientização para o conceito e a dimensão da ética. Ética implica responsabilidade e comprometimento e, como tal, incomoda aos que querem obsessivamente ganhar e ganhar, mesmo que todos sejam perdedores. Na estratégia de negociação há sempre um espaço reservado para um mínimo de renúncia às vantagens pessoais. Em relação à ética esse espaço é maior, pois a referência básica é o bem comum.

RH - Por que a ética corporativa tem tornado-se um tema polêmico?
Francisco Gomes de Matos - Um dos motivos são os descalabros noticiados, hoje, veiculados com mais impacto pela mídia, induzindo às mudanças de comportamento, sem que tenham existido revisões e transformações significativas na escala de valores de grande parte dos dirigentes. Defendo ser imprescindível passar pelo teste da essencialidade da ética: sentir a necessidade de ser; querer ser e saber ser. No primeiro plano está a conscientização, em seguida a determinação e, finalmente a sabedoria. Sem essa seqüência lógica o comportamento ético é contraditório. Não basta existir a intenção ou o querer romântico, é preciso competência no agir. Competência é um fator ao qual atribuo força considerável, é preciso saber realizar valores, princípios, sonhos, talentos, sem que a frustração mine energias, abrindo campo para todos os desvios e as distorções. O homem sem perspectiva ética tem baixa imunidade ao vírus da corrupção.

RH - O que falta à realidade empresarial é a presença de um modelo de gestão ética que dê um norte às organizações?
Francisco Gomes de Matos - Falta às organizações a exata compreensão que competência para resultados não é fruto de comando autoritário e ações reativas. O jargão competitividade, tão a gosto na linguagem corporativa, traduz-se infelizmente em estímulo ao vencer, vencer a qualquer preço, mesmo a custo da dignidade humana. A competição predatória é alimentada o tempo todo, sem até mesmo ser percebida - esse é o grande paradoxo e a contradição nos discursos motivacionais nas empresas. Um modelo de gestão ética começa por uma profunda revisão da cultura corporativa. É vital a identificação de todos com os valores comuns - as pessoas integram-se por filosofia, não por tecnologias. Mas hoje vive-se uma terrível fantasia tecnológica, onde há forte sedução do ter sobre o ser. A corporação do ser - que apesar de muitas evidências contrárias - todavia, ganha cada vez mais espaço.

RH - Atualmente, que fatores mais ferem a ética corporativa?
Francisco Gomes de Matos - São muitos os que tratam a ética como se fosse uma donzela angelical, pouco tendo a ver com o mundo real. Pensam: tudo bem, desde que seja circunscrita aos salões. Ou colocam a ética onde nunca deveria estar, num contexto de corrupção em que seu conceito esvazia-se em posicionamentos equívocos. A simulação da ética cria um mal gravíssimo: a descrença da juventude pelos padrões éticos do sistema e das corporações. Estamos falando do futuro, o que poderemos esperar? Daí dizemos que é urgente que se promova a pedagogia da ética, através de programas educacionais de conscientização e aplicação, pró-ética da ética. Os fatores que mais ferem a ética corporativa são basicamente a falta de nitidez e de conscientização de valores, além da desvalorização humana, incluindo aí todos os personagens atuantes, dirigentes, empregados, clientes, públicos em geral.

RH - O que dá consistência à ética corporativa?
Francisco Gomes de Matos - O princípio básico é estarem todos comprometidos com verdades comuns, integrados pela vontade comum e empenhados na ação comum. O consenso é pressuposto democrático básico, significando acordo e compromisso quanto ao que é essencial. Nisso se corporifica a ética.

RH - O principal condutor da ética nas organizações são os líderes?
Francisco Gomes de Matos - A ética faz parte da essência da liderança autêntica. Sem ética temos o tirano, na empresa o capataz, não o dirigente transformador, consciente de sua função educativa. A bandeira do líder é a renovação contínua das pessoas, das estruturas e das tecnologias. Uma empresa do ser é uma corporação fundada na ética da solidariedade. Todas as organizações possuem líderes, mas o que faz a diferença qualitativa é a liderança integrada. Integração é a mola da ética e a ferramenta imprescindível do líder.

RH - E como se posiciona o profissional de Recursos Humanos dentro dessa realidade?
Francisco Gomes de Matos - O profissional de Recursos Humanos é, por excelência, o educador na empresa e, assim, um agente ético de desenvolvimento, que é um conceito abrangente, envolvendo aspectos sociais, econômicos, tecnológicos, de negócios, mas que terá que atender prioritariamente o homem total. Sem a valorização humana qualquer expansão é transitória.

RH - Que fatores podemos considerar indissociáveis e sistêmicos para a disseminação e o fortalecimento da ética nas empresas?
Francisco Gomes de Matos - A ética como traço essencial da cultura corporativa é resultado da ação valorativa coerente das lideranças, com foco na educação empresarial. O sistema de comunicação - a informação relevante ao alcance de todos - e de geração de idéias - o livre pensar para agir com consistência. Nesse sentido, é vital criar espaço próprio para o pensamento estratégico. Minha experiência com a formação de um comitê estratégico é extremamente positiva. Costumamos fazer uma pergunta instigante: onde estão sendo formados os pensadores na empresa? Onde eles se reúnem? A prática das reuniões, sem filosofia, nem metodologia é, de um modo geral desgastante e desmoralizador. Por exemplo, um lugar onde pouco se pensa nas organizações é durante as reuniôes feitas pelas diretorias, pois os dirigente têm por vocação serem reativos na solução de problemas. O problema é a manifestação do passado, não consideram as oportunidades, cuja meta é o futuro. O grande desafio é superar o agir-pensar pelo pensar-agir. A ética estará fortalecida quando existirem estímulos concretos e estrutura para o pensamento inovador.

RH - Que ferramentas ou recursos corporativos podem ser usados no dia-a-dia para estimular a ética organizacional?
Francisco Gomes de Matos - No livro “A Cultura do Diálogo", Gustavo Gomes de Matos, recomenda e reforça a cultura do diálogo: criação do clima motivador ao entendimento, a negociação e a criatividade. Comunicação e relacionamento são duas áreas críticas que devem ser consideradas estrategicamente, pois são fatores éticos de sobrevivência organizacional.

RH - O Sr. é a favorável à adoção de códigos de ética nas empresas?
Francisco Gomes de Matos - Não tenho muita simpatia pelos códigos de ética. Acredito na boa intenção em instituí-los e que podem até serem necessários para determinados contextos e comunidades, mas vejo preocupante sinal de motivação punitiva nos mesmos. Partem do pressuposto restritivo quanto à moral vigente - nesse caso já existem códigos específicos, como civil, comercial, penal, entre outros. Prefiro a ênfase no educacional, na credibilidade, na honradez, que decorrem da cultura ética, que está sendo permanentemente construída. Em vez de códigos, sugiro diretrizes éticas.

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